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ARTIGO

hobbitDoutorado em Ciências da Comunicação, dá atualmente aulas no curso de Cinema na Universidade da Beira Interior. Começou o seu percurso artístico no teatro universitário, tendo integrado mais tarde, como co-fundador, o coletivo "Projecto Teatral" onde trabalhou nas áreas de fotografia e vídeo. Em 1998 adquire equipamento próprio e elabora os primeiros trabalhos experimentais, conseguindo para alguns deles apoios do Ministério da Cultura, mais concretamente da Direcção Geral das Artes. "Just Say No", "Série Y" e "Desenhos Animados" são três destes casos que fazem parte do seu portefólio. Trabalhou no Teatro Nacional D. Maria II em registos de espectáculos, making ofs, spots e vídeos para espetáculos. À entrevista que deu ao Motion Mill Project, Vasco Diogo afirma que a falta de recursos não pode ser uma desculpa e caracteriza o acompanhamento da evolução das ferramentas como algo "esquizofrénico". "Jogar o jogo com prazer, sem outra finalidade" é o modo de como Vasco Diogo nos descreve o seu processo criativo.

Motion Mill Project: Quais as ferramentas base para um projeto de vídeo arte?
Vasco Diogo:
Para além das ferramentas corporais, mentais, emocionais e espirituais fundamentais a qualquer trabalho verdadeiramente original e criativo existem as ferramentas materiais sem as quais os projetos não passam disso mesmo. Penso que uma das dimensões que define a videoarte é a maleabilidade das últimas: tanto se pode fazer um projeto interessante só com um telemóvel e um computador como noutros casos será necessário recorrer a uma panóplia de recursos semelhante a uma produção cinematográfica com efeitos especiais sofisticados. Cada projeto exige os seus próprios recursos. O importante é termos a consciência que hoje em dia a ausência de recursos nunca pode ser uma desculpa para nada na produção artística que utiliza o vídeo como meio.

M.M.P.: Acha que o desenvolvimento das tecnologias tácteis, das tecnologias 3D, das capturas de frames altas converter-se-ão em novas ferramentas a explorar por vídeo artistas?
V.D.:
A convergência do vídeo com o digital tende a dissolver a especificidade do primeiro dentro do que hoje se denomina Novos Media. Como tal os artistas que utilizam uma pluralidade de meios exclusivamente digitais tendem também a ser designados como artistas digitais. A denominação vídeo artistas perde hoje realmente sentido, no confronto com as tecnologias referidas, em favor, por exemplo, da denominação de artista multimédia, ou, mais simplesmente, de artista. Nesse sentido, tem sido uma constante da história da arte os artistas apropriarem-se dos novos meios que têm à sua disposição. Vivemos numa época que evidencia, nunca como antes, a impermanência dos meios e uma obsolescência contínua. Quem se interessa pelas novas ferramentas tem que estar sempre atualizar-se de uma forma algo “esquizofrénica”.

M.M.P.: Considera o domínio da técnica um pré-requisito para se fazer vídeo arte? Qual a importância que lhe atribui?
V.D.:
O domínio da técnica é um pré-requisito indispensável para se fazer vídeo arte e pessoalmente atribuo-lhe uma grande importância. É importante ter em conta que a técnica se define em primeiro lugar por tecnicidade humana, ou seja, por aquilo que nos distingue dos nossos “parceiros” animais e só depois pela nossa relação com máquinas mais complexas. Grande parte da videoarte mais interessante que se produz, por exemplo os trabalhos de Woody e Steina Vasulka ou Bill Viola, é uma reflexão sobre o limite e alcance da técnica, incluindo a sua dimensão metafísica.  Com isto não estou a defender uma necessidade de perfeição das obras mas antes uma tomada de consciência técnica sobre os processos. É importante pensar-se sobre a técnica mesmo quando o resultado final se pretende tosco, inacabado, bruto.

M.M.P.: Sabemos que já participou com trabalhos seus em festivais internacionais. Em que festivais participou e qual o feedback?
V.D.: Participei em vários festivais internacionais mais direcionados para a vídeo arte, performance, instalação, cinema experimental e novos media, entre os quais: Media Art Festival Friesland, Holanda, 2002; 1º FRAME – Festival Internacional de Vídeo-Dança, Teatro do Campo Alegre, Porto, 2002; 15e Instants Video de Manosque, França, 2002; 2nd Annual Detroit International Video Festival, Museum of New Art, EUA, 2003; Rencontres Internationales Paris/Berlin, 2003 (Paris: Fevereiro 2003; Berlim: Outubro 2003); 7th International Video Festival VideoMedeja, Sérvia e Montenegro, 2003; COURTisane Festival, Gent, Bélgica, 2003; 6th annual Antimatter Festival of Underground Short Film and Video, Victoria, BC, Canadá, 2003; Mostra (((prog: ME))), Rio de Janeiro, Brasil, 2005. Participei também várias vezes nalguns destes festivais, como por exemplo os Rencontres Internationales Paris/Berlin. O feedback é muito fraco, já que na quase totalidade dos casos não se consegue arranjar financiamento para as viagens, estadia e alimentação, despesas que este género de festivais só cobre muito parcialmente. Ainda assim, há um feedback inicial que é o fato dos trabalhos serem selecionados ou não e depois um feedback indireto através dos catálogos, etc..

M.M.P.: Acha que Portugal carece deste tipo de festivais? Acha que há falta de apoio aos projetos de videoarte? Precisam do internacionalismo para terem reconhecimento?
V.D.: Portugal carece deste tipo de festivais. Há falta de apoio aos projetos de videoarte, por exemplo através do ICA. É uma história muita antiga determinadas obras artísticas em Portugal serem primeiro reconhecidas no estrangeiro. Nesta área não há grupos de pressão e “o Estado é bastante ignorante”.

M.M.P.: Certamente cada artista tem um método próprio no processo de criação de obras de arte com recurso ao suporte vídeo. Como descreve o seu?
V.D.: Descrevo o meu processo essencialmente como uma atividade de escuta, no sentido mais sagrado do termo. Penso que em todos os meus trabalhos há uma intenção despreocupada de transcender, sem esforço, a dimensão dramática ou conflitual da existência. Por outro lado, existe também, quase sempre, uma dimensão lúdica que é bastante importante: trata-se de jogar um jogo com prazer sem outra finalidade para além disso mesmo.
Com o avançar do tempo vou tomando consciência que é igualmente importante a indefinição entre teoria e prática e arte e vida bem como saber tomar o pulso à energia pura da obra. Mas, como referi, estou num período de “pousio”.

M.M.P.: Acha que a crescente imersão no digital facilita a vida do vídeo artista?
V.D.: Os meios digitais facilitam a produção da videoarte ao mesmo tempo que, paradoxalmente, dificultam o reconhecimento deste medium artístico e, como tal, o reconhecimento do próprio “vídeoartista”. O digital é corrosivo: tem possibilidades infinitas e como tal muitos perigos. Quanto mais poder maior a responsabilidade.

M.M.P.: Já lecionou Montagem no curso de Cinema na Universidade da Beira Interior. Como distingue um corte no cinema, de um corte para projetos de vídeo arte? Qual lhe dá mais prazer?
V.D.: Se o suporte película (ainda) definir a especificidade do cinema e consequentemente a especificidade da montagem cinematográfica (material e analógica), a montagem digital para videoarte dá-me inequivocamente mais prazer, por uma questão de maior maleabilidade plástica no interior do próprio frame e na “colisão” entre frames (uma das razões que me levaram a desistir do curso de cinema foi a resistência às mesas de montagem analógicas). Não sendo uma regra geral, penso que a montagem no cinema trabalha mais sobre o primado da transparência e da ilusão enquanto a montagem na videoarte trabalha mais sobre o primado da visibilidade e da presença, ou, então, da total dissolução da montagem como prática necessária à aparição do visível, sobretudo através da manipulação do sinal em tempo real.

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